segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O homem do queijo


Esses dias, fui comer um pedaço de queijo, e isso me levou à uma grande viagem, vindo várias lembranças boas em minha mente. Como é estranho perceber que coisas que passam despercebidas, tantas vezes marcam tanto, a ponto de bater uma saudade boa daqueles tempos. Nem sempre fazemos coisas de propósito, e muitas vezes, sem perceber, estamos sendo observados por quem você menos espera. Com vocês: "O homem do queijo".

Essa história se passa nos meus bons tempos de pós-graduação em minha área da Psicologia, onde eu morava em Minas Gerais e, uma vez por semana, ia ao Rio de Janeiro estudar e trabalhar, durante quase 2 anos. Era uma rotina cansativa, de viagens constantes, onde eu ia e voltava várias e várias vezes. E cerca de uma vez por mês, um senhor ia vender seus queijos para clientes, alunos e psicólogos, que naquela clínica escola, atuavam.

Me lembro que eu embarcava no primeiro ônibus, rumo ao RJ e ia direto para a clínica, estudava, fazia meus atendimentos, e voltava para dormir na casa dos meus pais, por uma noite, voltando então para MG. E uma vez por mês, eu avistava aquele senhor, que não aparentava ter muita idade, ainda assim tinha um rosto sofrido, mas sorriso fácil, boa gente. Ele estava sempre indo, uma vez por mês, vender seus variados e deliciosos queijos.

Nas horas vagas, eu ficava enrolando, deixando o tempo passar e lá estava o homem do queijo, me oferecendo uma fatia para degustação, e eu brincava com ele, dizendo que morava em MG, e tinha facilidade de conseguir queijos de boa qualidade, a preços mais baratos. Ele ainda assim insistia para que eu provasse uma fatia, pois dizia que os queijos para degustação iriam ser consumidos ali mesmo; e eu então acabava provando e papeando com ele.

Já pelo final do curso, em um desses dias, eu fui tomar café mais uma vez e provar uma fatia daquele queijo, e brinquei com "o homem do queijo", dizendo que iria acabar o curso e até aquele dia não tinha comprado um queijo dele. Ele então sorriu e me disse uma coisa que me marcou muito: "sabe rapaz, vendo esses queijos em muitos lugares, e em vários lugares de gente chique igual a esse. Tem tanta gente que experimenta meus queijos e nem sequer olha para minha cara, nem agradece e acha que é minha obrigação dar os queijos para eles comerem. Você e um pessoal daqui, são diferentes, você fala com 'a gente', vê que 'a gente' é gente também, conversa de igual pra igual, olha pro rosto 'da gente' e trata 'a gente' que nem gente. Você não precisa comprar, só essa prosa boa já vale a pena. "

E essa foi uma das grandes lições daquele curso de pós-graduação, e que talvez eu não esqueça nunca. Até hoje eu não sei que nome tinha o "homem do queijo", ainda assim o considero um bom velho amigo. Talvez as pessoas que o ignoraram nem tenham feito por mal, estavam focados em outras coisas, preocupados com suas próprias vidas. Ainda assim, admito que "passei na prova" pessoal com o relato inesperado do lendário "homem do queijo"! 

A propósito, depois da lição que ele me deu, comprei como homenagem, um dos seus queijos!


 #Nuncaétardeparamudar 

1 comentários:

raquel silva costa disse...

Que bela historia. Dois grdes homens e o queijo.

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